Disseste que já não consegues afastar as sombras que se deitaram sobre nós,
como se a luz que um dia acendemos
tivesse desistido de encontrar caminho.
Disseste que cada palavra minha
te chega como um ataque,
quando o que sempre procurei
foi um lugar onde o meu sentir pudesse repousar
sem precisar de pedir licença.
Há uma dor silenciosa
em ver os próprios sentimentos recusados,
como se o coração falasse uma língua
que o outro já não quer compreender.
E depois veio a frase
que ficou suspensa entre nós,
pesada como um adeus que ainda não teve coragem de nascer:
que comigo existe peso,
mas com outra pessoa
encontras leveza.
Foi nesse instante
que percebi que o peso
talvez nunca tenha sido o amor.
Talvez fosse apenas a distância
que cresce quando dois corações
deixam de caminhar na mesma direção.
Porque quem ama
não mede a leveza pela presença de outro,
nem transforma a vulnerabilidade
num fardo a carregar.
Ainda assim,
não guardo revolta.
Guardo apenas o luto
por aquilo que sonhámos ser
e pela casa que construímos
antes de as sombras aprenderem
o caminho da nossa porta.
E se um dia a luz voltar,
espero que encontre em mim
a coragem de continuar a acreditar no amor,
mesmo sabendo
que nem todas as histórias
foram feitas para durar,
mas todas deixam em nós
uma forma diferente de aprender a sentir.


