Aquele que vejo à minha frente
hoje está acabado... velho
um tanto ou quanto diferente
Este espelho que reflecte a mim
e que em menino
me fez viajar até ao infinito
que construiu sonhos sem fim
que me fez herói de alguém aflito
tipo d’Artagnan, espadachim
até Faraó, rei do Egipto
sem pós de pirilimpimpim
é o mesmo espelho
que hoje me faz esconder
sentir-me ferro-velho
porque tem ele esse poder
tornar o sonho em pesadelo
o heroísmo em cobardia
a vaidade em desmazelo
o sorriso em dor, em agonia.
O amor próprio vai-se perdendo
as rugas vão aparecendo
e o espelho é ingrato
no passado teu confidente
tua força, teu fiel retrato
tornando-se cada vez mais errante,
decadente...
E aquelas declarações de amor?
corajosas, ditas à tua frente
aquele olhar felino, sedutor
aquele discurso de Presidente
fizeste de mim cientista, actor
até herói de banda desenhada
fazendo de mim verdadeiro cantor
com o cabo da vassoura, minha namorada
fui até Cowboy, Zorro de capa e espada...
Mas hoje tudo não passa de uma miragem
o reflexo de uma realidade vivida
de uma vida de coragem
que hoje é memória esquecida
Hoje os espelhos estão cobertos
por falta de vontade de acreditar
que os sonhos ainda são possíveis de se concretizar
porque afinal és belo e que as ditas rugas
são marcas de vida, de uma vida experimentada,
de uma vida realmente sentida.
O espelho tem de ser descoberto,
tem de viver novamente...
fazer sentido...
ele trará novamente o amor, o teu amor próprio...
aquele que foi perdido
e naquele momento certo
irás perguntar ao espelho
esse que um dia se perdeu
“Espelho, espelho meu...
haverá alguém tão belo
quanto eu...”
De Filipe Santos
Fotografia: "Autor Desconhecido"
